sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um futebol sem cor

Coluna Luciano Dias - Memória e calculadora esportiva

Imagem: Mídiaindependente

O Memória e calculadora esportiva desta sexta feira destaca um antigo inimigo que trasnscende as quatro linhas do futebol: o racismo. Na última quarta-feira, o goleiro Felipe, do Corinthians, foi mais uma vítima. No seu centésimo jogo com a camisa corinthiana, o arqueiro sofreu durante toda a partida contra o Juventude, em Caxias do Sul, insultos dos torcedores dos donos da casa. "Eles acham que preto não sabe jogar bola. E que só branco joga. Eles tiveram atitudes racistas o jogo inteiro", desabafou o atleta.

Esta não foi a primeira vez que Felipe sofreu com ato de discriminação na carreira. Em 2003, o goleiro deixou o Vitória-BA após ser chamado de "macaco" pelo então presidente do clube baiano, Paulo Carneiro.

Também não foi a primeira ocasião em que a torcida do Juventude foi acusada de ter este tipo de atitude. No ano passado, o volante Julio César prestou queixas na delegacia contra ofensas raciais de que teria sido alvo após o jogo contra o Atlético-MG, no Alfredo Jaconi. Em 2006, o clube sofreu severas punições, depois que os torcedores insultaram o meia Tinga, então no Internacional, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro.

As atitudes reprovadas da torcida sulista motivou um zagueiro experiente em 2006. Antônio Carlos Zago, hoje dirigente do Corinthians (que ironia), foi acusado de racismo por xingar o volante Jeovânio, do Grêmio - que é negro -, e fazer um sinal em que alisava o braço com o dedo, depois acertar uma cotovelada no rival e ser expulso da partida. Acabou punido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e ficou sem poder jogar por 120 dias.

Problema histórico

O futebol brasileiro possui várias histórias de racismo. O Bangu foi o primeiro clube a formar um time com jogadores ‘de cor’, pois os funcionários negros da fábrica dona do time eram melhores que os diretores brancos. Em 1914, o meia Carlos Alberto, do Fluminense, passava pó-de-arroz no corpo para disfarçar a cor e ser bem aceito nas Laranjeiras.

Em 1923, o Vasco da Gama foi campeão da segunda divisão carioca com um time formado majoritariamente por negros e mulatos. O fato provocou revolta nos aristocráticos clubes da primeira divisão, que exigiram a expulsão dos 12 atletas negros presentes no elenco cruzmaltino. O Vasco não aceitou. Separou-se dos grandes clubes e juntou-se aos pequenos. Dois anos depois, os grandes clubes perceberam o potencial do atleta negro, abriram seus elencos e aceitaram novamente os cruzmaltinos na sua liga.

O "diamante negro" Leônidas da Silva, o goleiro injustiçado Barbosa e até mesmo Pelé, que cansou de ser chamado de "macaquito" em partidas na Argentina e no Uruguai, também sofreram com o racismo.

Em 2005, o zagueiro argentino Leandro Desábato, então no Quilmes, chamou Grafite de "macaco e negro de merda", em jogo válido pela Libertadores. Resultado: saiu algemado do gramado do Morumbi e foi parar na delegacia. No mesmo ano, o zagueiro Wellington Paulo, do América de Minas, chamou André Luiz, do Atlético Mineiro, de macaco.

O Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Mineira de Futebol suspendeu Wellington Paulo por 30 dias. O jogador foi julgado com base em dois outros artigos do CBDF, o 187, que trata de ofensas morais, e o 278, por atitude contrária à disciplina. Uma pena insignificante para um crime de tamanha gravidade.

Racismo nos campos da Europa

O racismo está presente também, de maneira ainda mais contundente, nos campos europeus. Vamos destacar alguns casos nos últimos sete anos. Em 2001, o atacante nigeriano Omolade foi ofendido com inscrições racistas pela torcida do seu próprio clube, o Treviso. Em resposta, os jogadores do Treviso entraram em campo com o corpo pintado de negro. A torcida respondeu com uma faixa: "Nossas cores: branco e celeste".

Em 2004, o lateral marfinense Zoro, do Messina, saiu de campo depois de ouvir a torcida da Inter de Milão imitar macacos. Um ano depois, o treinador Luís Aragonés, então comandante da seleção espanhola, disse para o atacante Reyes: "você joga mais que aquele negro de merda", referindo-se ao atacante francês Henry, companheiro de Reyes no Arsenal-ING. A Federação Espanhola foi punida com 3 mil euros. Pouco?

Que nada. O Benfica levou uma multa de apenas 600 euros, depois que o atacante Mantorras foi chamado de macaco pelos torcedores. O caso mais marcante dos últimos anos foi o do camaronês Samuel Eto`o.O atacante do Barcelona ameaçou abandonar uma partida contra o Zaragoza, por ouvir a torcida rival imitar macacos quando ele tocava na bola. Desde então, Eto’o passou a comemorar seus gols imitando um gorila.

Cartão vermelho

A crescente onda de racismo contra os jogadores de futebol deu início a um movimento antiracista. Em 2005, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), fundado pelo ex-sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, lançou uma campanha nacional intitulada "Mande um cartão vermelho para o racismo no futebol" (racismonofutebol.org.br). A campanha tem como objetivo estimular o envio de mensagens para a Federação Internacional de Futebol (Fifa), a Uefa e a Federação Espanhola de Futebol, exigindo atitudes mais eficazes no combate ao racismo.

2 comentários:

Paulo Henrique Marques disse...

Luciano, além de seu texto estar maravilhoso, você tocou em um assunto de tamanha importância, em pleno século XXI.
Vale lembrar que no próxim dia 20 de novembro iremos comemorar o dia da consciência negra, mas devemos lembrar que discriminação não é apenas de cor. Ela é ideológica, econômica e social.
É muito legal saber que ainda existem pessoas nos meios de comunicação que ainda se preocupam com esses "detalhes".
Parabéns pelo texto e obrigado por lembrar disso.

Fábio disse...

atitude ridícula da torcida do Juventude.Eles merecem o time que tem.

Está passando da hora de acabar com o racismo. Chega!!